Uma análise elaborada a partir da leitura da Revista Época (2 de agosto de 2010), sobre as eleições presidenciais de 2010, permite avaliar um suposto posicionamento a favor do candidato José Serra (PSDB), enquanto as candidatas Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV) não ganharam o equivalente destaque.
No texto O Sujeito (Extra) Ordinário, os autores Coutinho, Xavier e Furtado fazem referência ao livro República de Platão, e uma analogia sobre o que é realidade e o que é representação dessa realidade. Ou seja, um filme sobre uma vida não é uma vida, assim como a pintura de uma cama não é uma cama. Por mais realista que seja a pintura, a intermediação da subjetividade do artista (pintor) está sempre presente. O artista fez a pintura do que viu ou do que imaginou?
Essa relação pode ser feita com a reportagem Cara a cara pela primeira vez. De um total de 132 páginas, a revista Época dedicou apenas três para as eleições presidenciais. Percebe-se uma exaltação dos pontos positivos de Serra, como suas experiências em debates que servirão de base para o tucano e como está preparado para enfrentar os outros candidatos. “Enquanto Dilma é uma estreante em debates, Serra é veterano”, diz a revista em um de seus parágrafos.
Em relação à Dilma, entretanto, o foco está no que ela deve mudar durante a campanha, e suas possíveis falhas como candidata. De modo implícito, a revista utiliza a adjetivação como: enfadonha, “tecnicista” e agressiva, por exemplo. Já no que diz respeito à Marina, há um posicionamento mais neutro, com poucas palavras sobre o que deve mudar para melhorar suas estratégias e quebrar a polarização entre PT e PSDB. Mas ainda assim, é notório a abordagem voltada ao negativo quando há referência sobre suas contradições diante do público e sobre sua convicção religiosa, por exemplo (informação desnecessária e sem menção para os outros candidatos).
Como diz no texto O Sujeito (Extra) Ordinário, o personagem é uma simplificação, uma concentração de ações e palavras que o define no interesse da narrativa. O que se percebe na reportagem é um recorte de momentos vividos pelos candidatos, que são verdadeiros, mas que não se limitam exclusivamente a isso. Há uma tentativa de construir uma imagem voltada aos interesses editoriais, que não representam, necessariamente, os interesses da sociedade. Quanto mais elaborada a linguagem mais aumenta-se a subjetividade e, no caso da revista, existe uma mesclagem de conteúdo que camufla o posicionamento da Época à favor de Serra. Por meio da escolha de palavras (ressaltando pontos pós Serra e falhas das mulheres) e de um box que fala dos três candidatos, a revista tenta passar uma imagem isenta, mas que num olhar mais crítico mostra a sua preferência.